09 Maio 2008

(Desconheço o autor)


Trazia apenas um olhar. Trazia apenas aquele brilho. E, colado a ele, um enorme vazio. Trazia nas algibeiras memórias, que o tempo amarelecera. E com as quais tentava desenrolar um fio de utilidade. Trazia nas mãos os momentos efémeros a que se obrigava. Aqueles a que sociedade exige. Debaixo do braço o livro. Ou seriam vários? Eram aqueles... Aqueles onde tudo cabia e da dimensão possível. E na qual há já muito deixara de acreditar. Trazia nos gestos [aqueles que nunca ninguém escutou] uma vida inteira. Mas, claro. Dali vinha sempre o ar tranquilo e meio inocente...
Lembram-se do momento em que desistiu? Quando encerrou tudo quanto continha numa caixa e a devolveu ao remetente? Não?... Bem sei... bem sei: não estavam lá. E quando pintou novos brilhos no olhar? Lembram-se dos novos tons que ganhou? Não? Sim... sei: também não estavam lá. E notaram? Como partia com a alegria de uma criança no olhar? Como voltava de olhar vazio e o peso do mundo nos ombros? Não... pois. Também não estavam lá. Alguma vez pararam para escutar a resposta que dava àquela pergunta, que costuma fazer parar o Universo, para logo em seguida se sentirem com os olhos embargados de lágrimas e a vontade imensa de a poderem alterar? Imagino a resposta: nunca se lembraram disso. Digam-me: Quantas vezes? Quantas vezes tiveram de esperar que aquele outro mundo lhe desse um pouco de paz? Nenhuma. Sei. Porque nem chegou a ter tamanho para existir nesse vosso mundo, enormíssimo, em que vivem.
Lembram-se? Da intensidade com que chorei, naquele banco de um verde de madeira velha, de tão imenso era o medo que sentia? Lembram-se do olhar idiota do porteiro ao ver-me chorar e de todas as [mil] vezes me informar que tinha de esperar mais um pouco? Lembram-se da imensa vontade que tive de a abraçar e de lhe contar a falta que faz, quando, finalmente, me foi possível aproximar-me? Lembram-se do quanto o meu olhar gritava isso por, como sabem, não ter esse direito? Vocês certamente teriam... Mas, também não estavam lá.
Quantas vezes? Quantas vezes lhe contaram o quão importante ela é para todos aqueles que a rodeiam? Sei... Imagino que sejam demasiado importantes para isso.

E permitam-me... permitam-me perguntar pela última vez: quantas vezes lhe pediram que ficasse? E... que, por favor, não se largasse?... Sei... imagino que, também, não tenham tempo para isso...


05 Maio 2008

(desconheço o autor)



Onde quer que eu que eu vá... Seja o que for que me mova... Seja qual for o número de vezes que caia no caminho... Há-de ser sempre... assim...





16 Abril 2008

(Vincenzo Sagnotti)

Pára... Por favor... Não me olhes assim... Não tenho culpa sabes?... Não me perguntes... Não me perguntes de novo... pois... bem sabes... não vou saber responder-te... sei apenas que sim...
Dá-me antes um estalo... Não vai doer tanto, assim... e a dormência que fica dura apenas alguns segundos e nem se compara a este estúpido nervoso miudinho... E, sei... sei... é minha a culpa... nunca te dou ouvidos quando mim é de mim que falas... Bem sei... bem sei... devia escutar-te... Mas já te disse... já te expliquei... acabo sempre por descobrir que sim... que é o que tenho de fazer... ainda que mais ninguém repare... ainda que mais ninguém note...
Não me faças isso... não me embargues os olhos de lágrimas... não me deixes (também tu) sozinha assim...
Fica apenas mais um pouco... Ajuda-me apenas a levantar quando o cansaço já mo não permitir... Põe apenas a mão no meu ombro quando todo o mundo me virar as costas... Lembra-me apenas baixinho de que
sou capaz...